Desde o início de sua carreira, o estilista Alexandre Herchcovitch sempre destacou-se pela inovação. Tanto na criação da moda que vai para as passarelas nacionais e internacionais, como também na extensão desse trabalho. Sua assinatura está nos mais diversos produtos: roupa de cama, louça, band-aid – só para citar alguns.
Herchcovitch também chamou a atenção, há alguns meses, com a venda da marca que leva seu nome para o grupo I’M e, na época, por ter se tornado o principal diretor de criação desse; assumindo, inclusive, o cargo na Zoomp. E, pouco depois, voltou à mídia devido ao rompimento com o I’M e ao vínculo com outra holding, dessa vez a InBrands.
Nesta entrevista, concedida durante uma visita a Brasília, na última semana, ele fala sobre gestão e criação.
Pergunta – Como surge a ideia de uma coleção?
Alexandre Herchcovitch – Não tem muita matemática. A coleção pode ser tirada de vários lugares, até de assuntos repetidos e recorrentes na própria marca. A partir do momento em que a gente estabelece esse tema, daí para frente é uma ordem cronológica para as coisas ficarem prontas a tempo.
Pergunta – Do que você mais gosta no processo de criação?
Herchcovitch – É a prova de roupa. Toda a coleção é provada em um corpo, tanto a masculina quanto a feminina. A gente vai fazendo ajustes até chegar no protótipo correto. Os ajustes e criações em cima de acabamento são o que eu mais gosto de fazer.
Pergunta – O que não pode faltar numa coleção sua?
Herchcovitch – Quando você faz uma coleção de roupa completa, ela não tem que ter tudo. Mas deve ter de tudo que a marca se propõe a fazer e que é o discurso da marca. Uma coleção completa sempre vai ter uma parte mais causal, uma mais formal, alfaiataria e uma série de outras coisas. Você não pode oferecer um produto para o seu cliente e, de uma hora para outra, mudar o formato da sua coleção.
Pergunta – Como transferir um tema abstrato, como cidades, que inspirou seu último desfile feminino, para as roupas?
Herchcovitch – É o mais intrigante. Mas não é o mais difícil, porque não existe nada difícil. É a parte que a gente mais tem que pensar. Você tem o tema e ele não é claramente uma roupa, década ou estilo. Se você se inspira em cidades, você tem imagens, mas nenhuma roupa. Então você tem que transpor o conceito dessa ideia para a roupa. O mais legal é quando você tem temas que não são óbvios na moda. Então, a gente estuda a construção das cidades, a mistura de estilos e tenta fazer essa transformação.
Pergunta – Zé do Caixão (tema da coleção masculina de 2004) sempre foi uma inspiração?
Herchcovitch – Não digo ele propriamente dito, mas o universo que o inspira, que é o terror. Isso sempre foi algo que eu prestei atenção antes de trabalhar com roupa. Sempre gostei, pois é um universo de fantasia. E isso instiga a nossa mente.
Pergunta – Na hora de criar sofás, isqueiros, band-aids e jogo de pratos, como é o processo?
Herchcovitch – Quem trabalha com criação é capaz de criar outras coisas. Eu não acharia estranho um arquiteto criar roupas. Tem uma interação desses universos que permite isso. Quando vou criar produto que não seja roupa, penso: “Tenho que criar algo que as pessoas que consomem a minha roupa comprariam”.
Pergunta – Como é partir de uma coleção sobre boia-frias e seis meses depois estar imerso em um universo de heavy metal?
Herchcovitch – É simples. A gente começa uma coleção muito antes de desfilar a anterior. Tem que ter uma chave que você desliga. Não é complicado se trabalhar com objetividade. Se há temas e referências pré-determinadas, é fácil ir de um lugar para outro sem fazer confusão mental. Consigo fazer com facilidade essa divisão. Ainda mais quando a marca é bem definida, com características próprias e que é diretamente ligada à pessoa que desenha. É só pegar o fio condutor da marca.
Pergunta – É prazeroso fazer produtos populares?
Herchcovitch – Quando você faz produtos mais populares, acaba atingindo uma gama maior de pessoas. Mas dá tanto prazer quanto fazer um produto que não é popular, porque é muito mais difícil fazer um produto que muitas pessoas gostem. Às vezes, faço um vestido com seis cópias e acabo vendendo apenas quatro peças. Sempre penso: “Somente quatro clientes gostaram do meu trabalho”. Mas quando você faz uma Melissa que já vendeu quase um milhão de pares, a sensação é diferente. Com o band-aid, foi a mesma coisa, vendeu mais de 300 mil caixas em pouco tempo.
Pergunta – Para um estilista ser completo, é preciso ter uma formação acadêmica?
Herchcovitch – Há 20 anos, começou esse movimento de formação acadêmica. A moda é um bebê. Acho muito importante um curso superior. Mas não se pode achar que em quatro anos vai aprender tudo e estará pronto para o mercado. Trabalho há 20 anos, ainda aprendo muita coisa e não penso em parar de estudar.
Pergunta – Você estuda moda e é diretor artístico da faculdade Senac. Tem vontade de ensinar?
Herchcovitch – De certa maneira, eu sou professor. Eu entro na sala de alguns professores esporadicamente para dar aula, mas não consigo desenvolver um programa de um ano inteiro. Faltaria muito. Acompanho os dois primeiros semestres para colocar o pé deles no chão, avisar como vai ser, para eles não ficarem grudados naquela ideia de glamour, que não existe. E, nos dois últimos semestres, acompanho o trabalho de graduação. Eles apresentam o que vão fazer, eu detecto os pontos fortes, dou sugestões, mas não mudo absolutamente nada, só mostro um caminho para eles concluírem o projeto de fim de curso.
Pergunta – Falta gestão de empresa nas faculdades?
Herchcovitch – Sim. Antigamente, as pessoas que faziam moda só queriam ser estilistas. O mercado saturou. As pessoas perceberam que os estilistas precisam ter outras pessoas ao seu redor. Ninguém vai ser bem sucedido se a gestão não for bem-sucedida.
Pergunta – O seu problema com a I’M deu experiência para gerir melhor o seu negócio?
Herchcovitch – Sim. Tanto é que, quando eu declarei que não fazia parte do grupo, um mês depois, outro grupo já havia se aproximado (a InBrands) e eu vendi minha empresa para eles. A experiência que eu tive no grupo I’M foi muito útil para eu passar para o mercado. E serviu também para eu aprender. Quando eu fechei com a InBrands, eu apliquei seguranças e garantias no contrato que assinei. (A I’M havia comprado duas marcas de Herchcovitch. O fim do negócio acarretou também a saída do estilista da direção de criação da Zoomp, que tinha sido adquirida pelo grupo HLDC, controlador da I’M).
Pergunta – O futuro das empresas de moda no Brasil é aliar-se a essas empresas de holding?
Herchcovitch – Eu espero que seja, porque, assim como eu tive dificuldade em gerir meu negócio enquanto era familiar, outras pessoas também têm. Mas as dificuldades não acabaram porque tenho gestores. Hoje, sou dono de 30% da empresa e os meus sócios me cobram posição na gestão. Então, além de ser um estilista e diretor de criação, sou um sócio atuante, tenho que aprovar todos os custos. Essa mudança aguçou meu lado empresarial.
© 2012 Criado por eddie.
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